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A Última Onda de Emigração Portuguesa para os Estados Unidos

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Emigração Pós-Capelinhos

A “invasão” migratória europeia-incluindo de Portugal-para os Estados Unidos no final do século XIX e primeiras duas décadas do século XX (1880-1920), que ultrapassou 24 milhões de pessoas, foi interrompida por uma postura de diminuição do fluxo de estrangeiros para o novo continente através de novas exigências para os candidatos à emigração, impostas pelo governo de Washington em 1917. As consequências sócio-económicas da I Guerra Mundial também muito contribuiram para o decréscimo na necessidade de mão de obra. Uma das principais medidas implemetadas para controlar a avalanche emigratória europeia foi a proficiência de leitura na língua materna. Embora essa exigência fosse extensiva a todas as nacionalidades, o seu impacto teve consequências profundas para os emigrantes portugueses, maioritariamente analfabetos e de origem rural.

 

Esta situação ainda se agravou mais quando, em 1921, o Congresso norte-americano aprovou legislação anti-imigratória limitando o número de imigrantes que poderiam ser admitidos por ano, a um máximo correspondente a 3% do total dos residentes nos EUA, em 1880, originários do país em causa. Para ilustrar esta mudança dramática, basta considerarmos que nas duas décadas entre 1930 e 1950, apenas cerca de 10,750 portugueses emigraram para os EUA, um número pouco superior a qualquer dos anos das décadas de 1900 (entre 1901-1910 emigraram 69,149 portugueses) e de 1910 (entre 1911-1920 emigraram 89,732). Na década de 1920 a emigração portugesa para os EUA decrescia para cerca de 30,000 (neste número estão incluidos os mais de 19,000 que emigraram apenas no ano de 1921). Terminava assim, na década de 1920, a primeira grande onda de emigração portuguesa para a América.

Durante vários séculos, a emigração havia-se sistematicamente constituido numa das soluções preferidas e mais apetecíveis para resolver as dificuldades económicas e para a manter a estabilidade numérica populacional. Os constrangimentos impostos em relação à emigração para o Brasil e para os EUA tiveram um impacto nefasto primordialmente nos Açores, que experimentaram um crescimento populacional incomportável para os recursos económicos e a escassez de terrenos agrícolas-porque primariamente estavam dependentes dos productos da terra-de que dispunham. Sem capacidade de escoamento, a população dos Açores aumentou de 232,000 habitantes em 1920 para cerca de 328,000 em 1960. Este aumento populacional, agravado pelo isolamento e abandono a que o arquipélago tinha sido votado pela administração central portuguesa, sob a liderança de Salazar, e pelas consequências inevitáveis da Segunda Guerra Mundial, tornavam as condições sócio-económicas de vida nos Açores insuportáveis.

Note-se que historicamente, a emigração açoriana representa mais de de 50% do total da emigração portuguesa para os Estados Unidos. A proximidade geográfica e a ligação com a frota baleeira americana tinham favorecido essa relação priveligiada na fase inicial da nossa emigração. Os portugueses do continente tinham à sua disposição alternativas mais próximas e fáceis na Europa, Brasil e África.

Na década de 1950, os EUA suavizaram a legislação anti-imigratória vigente com a lei Walter-McCarren, alargando a admissão de imigrantes não abrangidos por quotas. É também neste contexto de uma maior receptividade à emigração europeia que acontece, em 1957, a erupção vulcânica dos Capelinhos, na ilha do Faial. A sensibilização dos políticos americanos, em particular do luso-descendente Representante Estadual Perry de Rhode Island, bem como dos senadores da Califórnia, por parte das comunidades açorianas radicados nos Estados Unidos, para as condições a que ficaram sujeitas as populações atingidas, aliada ao possível aumento de popularidade que tal acto de solidariedade poderia trazer a esses mesmos políticos, sobretudo representados pelo interesse dos senadores Green, Patore e Kennedy, levaram à rápida aprovação, em 1958, de medidas de emergência que desbloquearam as restrições vigentes para a concessão de 1500 vistos especiais, supra quota-“Azorean Refugee Act”-para chefes de família originários do Faial que emigrassem até 30 de Junho de 1960. Esta proposta de lei especial foi apresentada pelos senadores John F. Kennedy (de Massachusetts) e John Orlando Pastore (de Rhode Island). Uma emenda legislativa introduzida um pouco mais tarde, alargava esse número de vistos para 2000, extensivo até Junho de 1962.

Posteriormente, novas iniciativas legislativas dos Estados Unidos, respectivamente em 1962 e 1965, alargaram e aboliam as restrictivas quotas de emigração para os países do sul da Europa, incluindo Portugal a quem foi atribuido o número de 8,719 vistos, apenas no ano de 1965. E, muito embora o limite máximo de 20,000 imigrantes nunca tivesse sido atingido pela emigração portuguesa nos anos que se seguiram, este conjunto de circunstâncias e acontecimentos marcariam o início de um dos mais intensos períodos de emigração portuguesa para os EUA, e originariam o maior êxodo da população açoriana num período inferior a duas décadas. Estima-se que entre 1960 e 1980, cerca de 180,000 portugueses emigraram para os Estados Unidos, contando-se entre eles aproximadamente 85,000 açorianos que se estabeleceram primariamente nos Estados de Massachusetts, Rhode Island, e Califórnia. Os emigrantes continentais deram preferência aos Estados de Massachusetts, New Jersey, New York, Florida e Connecticut.

Indubitavelmente, o regime de excepção estabelecido para a emigração dos sinistrados da erupção vulcânica dos Capelinhos, pela expressividade dos números e pelo dramatismo da situação, marcou a génese deste novo ciclo migratório de Portugal para os EUA. Por essa razão, esta onda de emigração dos anos 60 a 80, é também denominada por “Emigração dos Capelinhos”, embora talvez não passe de uma feliz coincidência.

Simultâneamente, com as contratações laborais de 1953, a emigração portuguesa, particularmente dos Açores, para o Canadá também toma proporções notáveis, atingindo nas duas décadas seguintes números próximos daqueles que se verificaram para os Estados Unidos. Neste período de aproximadamente 20 anos, os Açores perderam mais de um terço da sua população para os Estados Unidos e Canadá.

O censo da população estadunidense de 2000-considerado por muitos estudiosos na matéria como números muito baixos em relação à realidade-apresenta 1,177,112 pessoas de ascendência portuguesa, e aponta para a maior distribuição demográfica dos portugueses nos Estados Unidos com o seguinte quadro:

California 330,970

Massachusetts 279,722

Rhode Island 91,445

New Jersey 72,196

Florida 48,974

Hawaii 48,527

Conneticut 44,695

New York 43,839

Washington 17,200

 

Não existe qualquer Estado em que os portugueses não estejam presentes, embora que em números muito reduzidos, como no caso de South Dakota, que conta com 343 lusos.

Durante o ano, entre Setembro de 2007 e 2008 comemora-se o cinquentenário da erupção vulcânica dos Capelinhos na ilha do Faial, Açores. As diversas actividades e festividades que marcarão a efeméride decorrerão nos Açores e também nas comunidades onde se fixaram os imigrantes que usufruiram da oportunidade que lhes foi proporcionada nos primeiros 20 anos do último meio século. Estas celebrações pertendem ser uma ocasião de recordar o drama vivido pelas populações afectadas, de celebrar o sucesso generalizado desta vasta onda de emigração portuguesa, ao mesmo tempo que se preparam várias iniciarivas editoriais que farão o balanço e inventariarão para as gerações vindoiras o contributo dos portugueses desta última onda de imigração no país de acolhimento. PHPC e o Comité para as comemorações dos 50 anos doa Capelinhos na Califórnia tomaram a iniciativa de preparar a edição de uma publicacão de luxo, intitulada: CAPELINHOS: A Volcano of Synergies-Azorean Emigration to America, para documentar essa onda de emigração.

A publicação está projectada para ser apresentada ao público na Primavera de 2008.

 

 

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