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“RETALHOS DA ALMA”

Temos a oportunidade de celebrar com o amigo Décio Oliveira, o lançamento de mais um livro de poesia da sua autoria: “Retalhos da Alma”.

Esta obra poetica foi concebida ao longo de cerca de quatro décadas. Nela estão captadas imagens viventes profundamente negras, cuja intensidade dolorosa contrasta com o lírismo suave, quase epidérmico que aqui e ali nos surpreeende ao longo da sua leitura.

A poesia contida em “Retalhos da Alma” nasceu no coração do Dr. Décio Oliveira e foi Machado Ribeiro o poeta, quem lhe deu a

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forma literária, através da qual nos é possivel constatar a verticalidade do homem e a dor profunda que o persegue.

Celebremos portanto “Retalhos da Alma”, com Décio Garcia Machado Oliveira - de pseudónimo Machado Ribeiro.

Nascido na Ribeira Grande, São Miguel, Açores, após completer o curso liceal, frequentou o curso de Magistério Primário do Liceu Nacional Antero de Quental de Ponta Delgada.

Emigrou para a Califórnia, em Novembro the 1957. Após ter frequentado o San José City College, e a Universidade da Califórnia, em Davis, ingressou na faculdade de estomatologia da Universidade da Califórnia em San Francisco, recebendo o seu doutoramento em Junho de 1965. Estabeleceu-se em San José onde exerceu durante 35 anos a profissão de dentista.

É casado com Maria Helena Madruga Oliveira, pai de Helena Maria e Elizabeth Marie, e avô de cinco netos.

Foi membro activo na associação local de dentistas e em muitas organizações comunitárias a nível social, cultural e professional. É membro da Associação Americana de Dentistas e Endodontistas, Sociedade de Peridontologia da Califórnia e da Academia de Estomatologia Geral.

Foi também agraciado com a Comenda da Ordem de Mérito de Portugal.

No principio deste ano publicou o seu primeiro livro de poesia entitulado PÓ. Presentemente encontra-se a trabalhar num novo livro de titulo provisório: “SOL POSTO”.

Ao preparar a critica de “Retalhos da Alma”, deparei-me com uma questão interessante, talvez mesmo controversa. A pergunta que a mim mesmo puz, aparentemente obtusa à superficie, pelo menos no momento me pareceu sobremaneira intrigante.Donde vem a poesia? Será que todos nascemos poetas, trazendo desde o berço a habilidade nata de emprestar cor e sentir, às palavras? Ou será que ser-se poeta, é um talento adquirido através da experiência académica e outras oportunidades semelhantes?

A poesia, a meu ver tem por base impulsionadora uma sensibilidade muito subtíl, que a inspira e propele dum modo decidido, para àreas do psiquico humano onde apenas o poeta sobrevive. Não creio que se possa “fazer” poesia simplesmente com base no engenho do poeta e na mecânica do verso, sem aquela sensibilidade “à flor da pele” que caracteriza os grandes poetas.

Se não vejamos, muitos de nós somos capazes de descrever mecânicamente os diversos componentes do soneto, (uma composição poética de catorze versos, dispostos em dois quartetos e dois tercetos) até poderemos “encostar” versos que dão a aparência de poesia. Mas quantos de nós possuímos o talento necessário para dar vida a esse mesmo soneto e fazê-lo vibrar com emoções humanas de tristeza, alegria, dor e paixão? Quantos serão capazes de emprestar a côr do lírismo puro, a expressões que de outro modo seriam totalmente despidas de valor emocional e artístico significante?

Não é por acaso, que alguns dos mais belos poemas líricos criados nos Açores, tiveram a sua origem no coração dos nossos poetas populares, muitos deles sem o benefício de previlégios académicos. Esses poetas de pé descalço, com lírios nos olhos, ventania nos cabelos e sol na alma, traziam poesia no peito!

O poeta verdadeiro, diferencia-se do resto de nós simples mortais, quando tomando o próprio coração em mãos trémulas e hesitantes, o partilha com o resto da humanidade, dum modo decisivo e altruísta. _ este acto de amor que define a poesia! Acreditamos que todo o ser humano traz lírismo nas veias e poesia no coração. Deduzimos portanto, embora empíricamente, que é a poesia que faz o poeta! Tal observação quiçá polémica, todavia aceitamos entusiàsticamente a controvérsia resultante, pelo menos dentro do contexto limitado desta critica.

“Retalhos da Alma” nasceu bem no âmago dum coração partido que sente intensamente; quer se trate de amor, alegria, dor ou saudade. Por isso mesmo, Machado Ribeiro consegue partilhar com o leitor, dum modo ìntimo e imaginativo, toda uma variedade de sentimentos e perspectivas profundas, que atravessam de ponta-a-ponta a complexa gama de emoções humanas. Desconheço outro acto de amor e intimidade, de tamanha magnitude!

“Retalhos da Alma”, foi talhado ao longo dum àrduo e tortuoso percurso. Por isso mesmo, reflecte o amadorecimento emocional e literário do poeta, através dessa longa jornada. O modo deliberado e moroso como “Retalhos da Alma” foi concebido, capta uma realidade vivencial tão palpável, que o leitor defícilmente conseguirá diferenciá-la dos vários elementos de ficção, inevitàvelmente presentes. Com o fim the ilustrar a linguagem pungente e vibrante da poesia de Machado Ribeiro, não pude resistir a tentação de incluir neste trabalho alguns dos poemas em “Retalhos da Alma”. Fá-lo muito simplesmente para realçar elementos únicos que permeiam os versos deste poeta.

No prólogo de João Botelho, bem como no prefácio de Onésimo Almeida, ambos expressam surpresa pelo conteùdo taciturno e dramàtico que trespassa a poesia de Machado Ribeiro, em “Retalhos da Alma”. Particularmente, quando esse tom taciturno e dramático, é contrastado com o modo de expressão alegre e communicativo, comportamento típico do autor em circunstancias sociais. Não nos cabe aqui e agora analizar as razaões de tal paradoxo. Limitar-nos-emos a aceitar o facto de que o ser humano é cheio de incongruências, e o autor tal como nós, não foge a esta realidade.

O professor João Botelho, muito acertadamente conclui no seu prólogo que: “Este livro é para todos lerem. Destina-se aos outros poetas e aos leitores de qualquer estilo ou forma. Terá possìvelmente uma ressonância muito especial no coração dos que sentem amores distantes. Calará fundo também naqueles que, tendo emigrado, sentem com amargura, a saudade da terra natal e dos tempos idos.”

Elementos panorâmicos típicamente Açoreanos, tais como o mar, o barco, as garças, etc., cuja presença se faz sentir em vários poemas, são imagens que aparecem envoltas num lírismo caracteristicamente ilhéu, que inevitàvelmente nos transporta às saudosas ilhas. Por vezes estas imagens apresentam-se-nos trespassadas de desespero e confusão, sendo frequentemente acompanhadas por um insistente namoro com a morte.

A meu ver, é este deambular constante entre o que há de mais puro no lírico e o que há de mais negro no drama, que define essencialmente a poesia de Machado Ribeiro.

O poema “Anoitece” por exemplo, contém a combinação de quase todos estes elementos:

Anoitece.
A lua aparece
A iluminar os ares.
Quem me dera que fosse noite escura
Como a minha alma.
A Neblina desce
Serena e, os cantares
Das garças quebram, com a candura,
Do silêncio a calma.
O mar matizado
De branco e azul
Um pouco encrespado,
Beija o barco rumo ao sul.
Noite da vida
Sem norte
Imagem nitida
Da morte.

“Retalhos da Alma” reflecte também a constante luta do poeta para se encontrar a si próprio. _ no contexto desta simbiose peculiar que Machado Ribeiro encontra inspiração para alguns dos seus melhores poemas. O desalento e a frustração causados por esta busca infrutífera, são bem patentes no poema entitulado “Fugi de Mim”:

Cansado,
Fugi de mim
Fui longe
Tão longe
Que de ti
Exausto assim
Nem saudades senti.
Nómada solitário
Olho as areias do deserto
Contas do meu Rosário
Eu, o louco, o escravo liberto
Da opressão sedutora
De teus lábios, da esmagadora
Beleza de teu corpo, da suavidade
Cativante de teu olhar, do calor
Ardente de teu peito...
Leviandade!
Antes livre que escravo errante
Subjugado por um amor indiferente e alucinante.

Mais adiante, no poema “Por Deus te Peço”, uma vez mais o autor deixa tansparecer uma vulnerabilidade inocente, que lhe permite questionar o significado da própria vida. Esta confusão a que o poeta chama “andar a deriva no mar da vida”, aparece de quando em vez, qual duendo que habitando no mais recôndito de sua mente flagelada e irrequieta, serve-se da pena do poeta para teimosa e surpreendentemente se materializar:

O pensamento vagueia
Como despojos de nau que naufragou
Os despojos andam à deriva das ondas
E eu, à deriva no mar da vida.
Quantas saudades eu tenho, Deus meu?
De quê, não sei.
etc. ...
 
 

Aqui e ali, Machado Ribeiro surpreende-nos “cantando” imagens trespassadas duma inegável “açoreanidade” (perdoem o termo). _ através destas imagens, que o poeta nos leva pela mão, aos nossos próprios tempos de infância. No poema intitulado: “Ao Mar”, o poeta é levado pela corrente aos anos da adolescência, recordando com saudade o familiar marulhar das ondas:

Adormeci
C'o marulhar do mar
E a recordar a infância
Que jamais voltará
Até o céu nublado
De cinzento matizado
Me fala de ti.
etc.

Tal como na poesia contida na publicação anterior: “PÓ”, Machado Ribeiro “chora” frequentemente amores raramente retribuídos, onde a dor, a saudade e o desejo duma morte precoce prevalecem. Em “Retalhos da Alma”, o poeta embora vitima dos mesmos amores trespassados de dor e desapontamento, parece todavia encarà-los dum modo um tanto pragmático, até mesmo filosófico.

Muito embora seja notória a presença deste tema, emprestando um ar de familiaridade a que já nos havíamos habituado em “PÓ”; em “Retalhos da Alma” o poeta dá-lhe nuanças através das quais consegue manter um ar de novidade e surpresa. Ao leitor, são garantidas novas descobertas não obstante a persistência temática.

No poema “Sepultura da Dor”, o poeta uma vez mais “canta” o amor, emprestando-lhe a cor negra da solidão que lhe é tão característica:

A solidão que me vai na alma
é a ausência do teu amor
calvário de negras mágoas
Penedo da minha saudade
tempestade que se acalma
no doce sussurrar das àguas;
o tormento que me invade
e adormece na sepultura da dor.
 

Para aqueles que o conhecem, o Dr.Décio Oliveira será sempre creditado com o modo destemido e frontal com que dasafia a mesquinhez e paroquialismo sociais.

O idealismo social que lhe é característico, o qual tem sido amplamanente demonstrado através do seu envolvimento em organizações comunitárias e não só, tem-lhe proporcionado elementos riquíssimos de relação humana, mas também alguns motivos de frustração e desapontamento.

O leitor encontrará em “Retalhos da Alma” vários poemas cujo conteúdo claramente define o sistema de valores sociais, com os quais o autor se identifica. Como seria inevitàvel, o poeta também expressa frustração profunda, ao constatar que responsabilidades sociais são substituídas por mesquinhez e trivialidade. Sugerimos por exemplo, a leitura to poema “Desabafo”, no qual Machado Ribeiro nos proporciona motivo para ampla reflexão nesta àrea.

Como não podia deixar de ser, Décio Oliveira dedica uma parte substancial da sua poesia a membros de família que lhe são muito queridos. Os poemas: “À Minha Filha Helena”, “Passaram Seis Anos” e “À minha Filha Elizabeth”, definitivamente terão uma ressonância muito especial em todos os pais.

Através destes três poemas, de simplicidade cativante e linguagem suave, Machado Ribeiro deixa-nos espreitar no recôndito mais terno de seu estro. O leitor acolherá com surpresa e entusiasmo, este avagar de “ritmo”-- qual mudança de compasso na partitura poética de “Retalhos da Alma”.

Ainda dentro do tema de familia, o poeta mantém presentes em mente e coração, entes queridos que muito embora já falecidos, contínua e saudosamente relembra. Exemplos desta saudade profunda estão patentes nos poemas -- “Prece” e “Ao meu irmão Albano”.

Finalmente, é no poema “A Outra Ilha”, que o poeta encàpsula todo o drama associado com o fenòmeno da imigração. Desde a esperança de dias melhores em terras distantes, ao desapontamento por uma pátria que não soube acarinhar seus filhos; passando pelos “sonhos espesinhados” e à consequente exploração humana. Machado Ribeiro deu voz a todo um drama, com o qual nos identificamos. Por este motivo, achamos apropriado partilhar com o leitor o poema “A Outra Ilha”. Não fazê-lo, seria omissão imperdoàvel:

Eu sou a outra Ilha,
A décima como me chamam,
A imigrada,
Afastada das nove
Pelas intempéries do destino
Em busca de melhor sorte
Por mares e terras doutras gentes;
Olhos postos no horizonte da vida,
Empurrados por uma mãe Pátria
Que não soube exprimir o seu remorso.
Exploração humana.
Trouxe comigo
Penedos de saudade,
Aldeias de dor,
Badaladas da mente,
Gemidos da alma,
Sonhos espesinhados,
Praias despidas,
Pedaços de luar,
Aspirações destruidas,
Trindades amargas,
Ausência dolorosa,
O marulhar das ondas do abandono,
O tormento de partir sem lar,
Sem sono,
Só saudade...
Ilha esquecida.

A lançamento do livro de poesia do Dr. Décio Oliveira, “Retalhos da Alma”; é motivo para celebração e regozijo! Celebremos portanto a poesia, que nascida nas veias de Décio Oliveira, no martelo e bigorna de Machado Ribeiro foi forjada em obra, da qual não só o autor, mas todos nós nos podemos orgulhar.

Daqui endereçamos os nossos sinceros parabéns ao Dr. Décio Oliveira, bem como aos seus familiares e amigos que o apoiaram neste projecto. Bem hajam! Desde já, ficamos ansiosamente aguardando a publicação de “SOL POSTO”, certamente mais uma pérola poética, no colar da diáspora Portuguesa em terras da Califórnia.

Não podemos deixar de mencionar o apoio incondicional da Portuguese Heritage Publications of Califórnia, na medida em que facilitou e apoiou as diversas fases do processo de publicação de “Retalhos da Alma”; o segundo livro the Décio Oliveira, e o terceiro volume da colecção “Décima Ilha”. Colecção esta dedicada a trabalhos em língua Portuguesa, por autores Luso-americanos na Califórnia.

Finalmente, está de parabéns a Comunidade Portuguesa na Califórnia -- esta “Décima Ilha”, tão longe das outras nove sob o ponto de vista geográfico, mas tão perto nos laços culturais e afectivos que a une ao arquipélago atlântico dos Açores.

Francisco Henrique Dinis

San Jose, Nov. 11, 2005

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